Conhecido popularmente como “tadala”, medicamento indicado para condições específicas passou a ser usado por homens saudáveis em busca de mais confiança no sexo e até de um suposto efeito no treino
A tadalafila, popularmente conhecida como “tadala”, deixou de ser um medicamento associado apenas ao tratamento da disfunção erétil e passou a ocupar espaço em conversas entre jovens, redes sociais e até academias. Entre homens saudáveis, o uso da substância tem sido relacionado à busca por mais segurança nas relações sexuais e à expectativa de melhorar o desempenho durante os exercícios.
O crescimento desse consumo, porém, preocupa especialistas. Segundo médicos ouvidos pelo Correio Braziliense, a tadalafila não deve ser tratada como suplemento, pré-treino ou uma espécie de “garantia” contra a ansiedade sexual.
Relatos de uso entre jovens
“Ricardo”, nome fictício utilizado pelo Correio Braziliense, tem 28 anos e contou ao veículo que já recorreu ao medicamento antes de encontros. Em uma das ocasiões, tomou uma dose de 5 miligramas antes de sair com mais de uma mulher no mesmo dia.
Ao portal Correio Braziliense, ele afirmou que a experiência trouxe a sensação de maior confiança e relatou ter percebido diferença no desempenho sexual.
Explosão nas vendas
A popularização da tadalafila também aparece no mercado farmacêutico. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontam que 74,9 milhões de caixas do medicamento foram vendidas no Brasil em 2025. O número representa um aumento em relação às 64,7 milhões de unidades comercializadas em 2024.
Uma década antes, em 2015, as vendas somavam 3,2 milhões de caixas.
Os números não detalham a faixa etária dos consumidores, mas especialistas afirmam que o uso sem indicação médica entre homens mais jovens tem se tornado mais comum. A facilidade de acesso ao medicamento e a circulação de relatos nas redes sociais contribuem para o fenômeno.
Em entrevista ao Correio Braziliense, Gustavo Marquesine Paul, coordenador do Departamento de Andrologia, Reprodução e Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), explicou que o uso recorrente pode favorecer uma dependência psicológica.
A substância não provoca dependência química, mas o usuário pode passar a acreditar que só terá um bom desempenho sexual se tomar o medicamento antes da relação.
A promessa de mais músculos
Nas academias, a tadalafila também passou a ser associada ao chamado “pump” muscular — a sensação temporária de aumento do volume e da vascularização dos músculos durante ou logo após o exercício.
Ao Correio Braziliense, Ricardo afirmou que já tomou o medicamento antes de treinar. Segundo ele, a principal mudança percebida foi visual, com maior evidência das veias.
Apesar dos relatos de usuários, especialistas ouvidos pelo veículo ressaltam que não há evidências científicas de que a tadalafila aumente o ganho de massa muscular ou melhore o desempenho físico de pessoas saudáveis.
O chamado “pump” está relacionado ao aumento temporário do fluxo sanguíneo durante o exercício. Isso não significa que a tadalafila funcione como suplemento ou que seja capaz de potencializar os resultados do treino.
Em outras palavras, veias mais aparentes durante a atividade física não significam necessariamente mais ganho muscular.
Efeitos colaterais e riscos
Quando utilizada com indicação médica e dentro das condições previstas em bula, a tadalafila é considerada segura. O risco aumenta quando o medicamento é consumido por conta própria, sem avaliação profissional e sem considerar as condições de saúde do usuário.
Entre os efeitos colaterais mais comuns estão dor de cabeça, dor muscular — especialmente na região lombar —, congestão nasal, vermelhidão no rosto e desconfortos gastrointestinais.
Em situações mais raras, podem ocorrer complicações graves, como priapismo, caracterizado por uma ereção prolongada, além de alterações na visão ou na audição e quedas significativas da pressão arterial.
Em entrevista ao Correio Braziliense, o urologista Fernando Meyer, professor da Escola de Medicina e Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), alertou que a redução da pressão pode provocar tontura e desmaios, aumentando inclusive o risco de acidentes.
Mistura com álcool e outras substâncias exige atenção
A combinação da tadalafila com álcool pode intensificar a queda da pressão arterial e provocar sintomas como tontura, palpitações e dor de cabeça.
O risco pode ser ainda maior quando o medicamento é associado a energéticos, estimulantes, anabolizantes, drogas recreativas ou suplementos cuja composição não é conhecida.
Ao Correio Braziliense, Rodrigo Wilson Andrade, urologista e coordenador da Urologia do Hospital Albert Sabin, em São Paulo, afirmou que muitas pessoas não sabem exatamente o que estão consumindo, o que pode tornar os efeitos imprevisíveis.
Também existem interações importantes com outros medicamentos. Pessoas que fazem uso de nitratos para tratar problemas cardíacos, por exemplo, podem sofrer uma queda perigosa da pressão arterial ao combinar essas substâncias com a tadalafila.
Outro alerta é para o aumento da dose por iniciativa própria, motivado pela falsa sensação de segurança ou pela expectativa de obter um efeito maior.
Pressão por desempenho alimenta consumo
Para os especialistas ouvidos pelo Correio Braziliense, a popularização da tadalafila entre os jovens está relacionada a uma combinação de fatores: facilidade de acesso, influência das redes sociais e uma pressão cada vez maior por desempenho sexual e físico.
Em alguns grupos, o medicamento passou a ser apresentado como uma espécie de “reforço de confiança”. O problema é que essa expectativa pode criar uma relação de dependência psicológica e aumentar a ansiedade quando a pessoa não utiliza a substância.
O consumo frequente de conteúdos pornográficos também pode contribuir para expectativas irreais sobre desempenho, duração e frequência das relações sexuais. Com isso, alguns homens passam a acreditar que precisam de medicamentos para alcançar padrões que não correspondem à realidade.
Afinal, para que serve a tadalafila?
A tadalafila foi desenvolvida principalmente para o tratamento da disfunção erétil. O medicamento atua sobre a enzima fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5), favorecendo o fluxo sanguíneo necessário para a ereção.
A substância não aumenta o desejo sexual e não provoca uma ereção automática. É necessário que exista estímulo sexual para que o medicamento produza efeito.
A tadalafila também pode ser prescrita em casos de sintomas urinários relacionados ao aumento benigno da próstata e no tratamento da hipertensão arterial pulmonar.
A recomendação dos especialistas é evitar o uso por conta própria. Transformar um medicamento em pré-treino, “seguro” para encontros ou solução para inseguranças pode trazer riscos que vão muito além do resultado esperado.
Antes de usar a substância, a orientação é buscar avaliação médica. Quando o assunto é medicamento, improvisar pode transformar uma promessa de desempenho em um problema de saúde.
Com informações do Correio Braziliense.






